"A linguagem, como toda a gente sabe, ou como toda a gente devia saber - e eu já o tenho dito aqui muitas vezes - serve para exprimir o que se sente mas também serve para esconder o que se sente." João dos Santos em "Se não sabe porque é que pergunta?"
Mar revolto na cadências dos dias que passam e a serenidade da contemplação. E há um coração onde o sangue se renova sentindo o pulsar da vida. E as raízes retomam de novo a força do renascer. Pétalas brancas sobre a verdura de uma folha sem espinhos. Os olhos fecham-se e o círculo estreita os seus infinitos lados permitindo o percorrer da planície. O céu é o limite.
Num ápice o tempo desmorona-se transportando-nos ao passado, a um passado tão longínquo que se supunha enterrado. E nas ondas da palavra escrita surgem os sorrisos e as perguntas; as respostas advinham-se. Há vivências passíveis de serem recuperadas contrariamente a todo um conjunto de rupturas irreversíveis com vida. Não, não é um déjà vu é, isso sim, a vida que ficou por viver, o encanto que a sombra escondeu, a barca ancorada no porto da inocência. E o coração galopa pela verdura da planície e vêm as memórias, tão boas. Dançam ao som das guitarras que se enternecem e as sombras acomodam-se no porão do navio fantasma, e há sorrisos. E o ocaso é uma imensa tranquilidade nos tons pastel do outono, que a primavera viveu-se, o inverno foi duro e o verão absorvido na voragem do tempo. "todo o passado me passou velozmente pelo cérebro", como se o cérebro conseguisse atingir a velocidade suficiente para recordar o passado que o coração alberga. E é luz! E sobre a areia, na rebentação das ondas, fica a marca das palavras que ainda não foram ditas. E sobre o mar as cores do pôr-do-sol alisam as imperfeições do tempo, e o barco balança...
Este é um dos livros que na força dos meus 18 anos me marcou. O conteúdo fantástico tão característico dos latino-americanos e a constatação de que há gerações condenadas a viver a solidão em que a alma se refugia até que a morte a desfaça. Ela passa de geração em geração como um testemunho, é uma condenação. No meio da multidão que nos agita há uma ilha em cuja costa se edificam barreiras para que a beleza e a força do mar a não invadam. Sente-se ao longe a suavidade da maré baixa e o bater forte das marés vivas. E por entre as frestas, a saudade. Uma saudade imensa que se banha na tranquilidade de um mar chão onde a lua teima em se deitar. E os dias caminham no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio anulando o tempo feito de espaços vazios. Talvez o sol possa deitar um raio menos escaldante, atalho para um lugar tranquilo nos sonhos confiados à lua...
sobre o azul escuro da água a luz realçava o ondular poético de todos os segredos que no longo caminho guardou. os barcos surgiam na paisagem idílica do sonho e o farol era apenas uma luz espúria na grandeza do reflexo lunar. as memórias entrelaçam-se e o grito é abafado pela ternura.
foto aqui Nos interstícios do tempo que passa a memória floresce e na foz de um rio que se estende ocultam-se vivências felizes. Saltam conchas e ondas,salta a vontade e a areia é poeira de lembranças que desabrocham.